Composições

Anualmente o Laboratório CEVAQOE selecciona um vinho, o qual é submetido a uma degustação pelo enólogo Jean-Michel Riboulet na presença de um pintor profissional que tem como missão transpor para a tela as características sensoriais do vinho.
Assim, todos os anos, nasce uma obra de tiragem limitada.

LA ROMANÉE GRAND CRU MONOPLE 2006

Um vermelho carmim de vinho maduro, escuro e opaco, esbatido por um castanho.
Timidamente, aproximamos o nariz do disco calmo.
A primeira impressão é marcada pela doçura e elegância, com uma sucessão sem fim de aromas detalhadamente delicados, como aqueles que brotam na abertura das caixas que abrimos, uma a uma, na prateleira de uma antiga mercearia, para se misturarem com os precedentes, cada um encontrando o seu lugar natural na fragrância complexa que se criou.
São, numa equilibrada harmonia, os toques florais, a cereja fresca, o torrado, o condimentado e o picante.
Com a agitação no copo, os aromas juntam-se todos numa rica entoação harmoniosa onde se misturam em perfeitos complementos, num registo em crescendo, a ginja, os pequenos frutos vermelhos, a groselha, o caroço, o pistácio, a amêndoa amarga, o nogado e o tabaco louro.
Com a evolução, a cereja torna-se mais negra, descobre-se o torrado e as notas de fumo seguidos de uma leve presença de louro.
A  fragilidade delicada transformou-se numa maturidade assumida.
Na boca, persiste este bouquet de frutas frescas, precedente das notas de couro. Em seguida, manifesta-se uma ampla redondez envolvente, rapidamente apoiada por taninos fundidos e sedosos numa subtileza evidente.
Esta suavidade é sustentada pela vivacidade e mineralidade do solo da sua parcela, numa extensão que se instala e perdura.
Um vinho ainda bastante jovem, que recresce enquanto aguarda o prazer de o beber.

Dezembro 2011
Jean-Michel RIBOULET

BANDOL 2010

Um vinho com um manto rubi-carmim escuro e profundo, com uma discreta nota acastanhada da evolução.
No nariz é quente, rico e complexo, onde se misturam os frutos negros, a ameixa seca e a groselha preta, bem como a paleta de aromas a madeira, tostado, especiarias, baunilha, tabaco e café que se aliam a notas animais, de couro e no final a mineralidade dos seixos aquecidos.
Apresenta uma boca cheia e poderosa com uma grande presença, onde se exibem a ameixa e o tostado com ataque intenso, com um equilíbrio simbiótico entre os aromas, o calor, o volume e a textura untuosa, o sabor adamado e os taninos francos bem presentes, fundidos, seguidos por uma bela persistência.
Um vinho surpreendente, simultaneamente delicado a desabrochar para os frutos maduros, mas igualmente poderoso e estruturado, com uma rectidão notável para uma tal matéria e com uma complexidade elegante.
Um vinho pleno, amplo e estruturado, cuja presença vem igualar o prestígio dos maiores Bandol.
O prazer para hoje e também para amanhã, a força e a harmonia de Provence.
Só faltam as cigarras.

Dezembro 2010
Jean-Michel RIBOULET

CORTON CHARLEMAGNE 1937

EM HOMENAGEM A PIERRE IGON

Um nível baixo sobre o qual nos interrogamos o que pode indiciar, tal como relativamente a este pequeno Senhor afável e discreto.
Depois, quando ele se mostra, decantado, apresenta uma grande limpidez e uma cor bronze âmbar.
No nariz a noz fresca, as frutas cristalizadas, o alperce, o marmelo, uma nota de alcaçuz, a flor de laranjeira, a pastelaria, um apontamento a cogumelo fresco.
Grande vivacidade na boca, equilíbrio, o álcool está fundido, um final longo.
Um envelhecimento harmonioso, a sensação de poder esperar, na sua força, a maturidade e a rectidão.
Uma excepção cujo resultado se deve à natureza, ao talento do Homem e à rolha de cortiça.
Um vinho de uma juventude admirável que parece eterna, como a arte do enólogo e o génio do artista.

Dezembro 2009
Jean-Michel RIBOULET

PAUILLAC 2000

Este vinho do milésimo do século apresenta uma admirável juventude em cor, com um manto rubi púrpura brilhante e um disco mais claro.
No primeiro nariz, os aromas estão já maduros com a fruta em compota, a ginja, a groselha, a fruta de caroço, a amêndoa amarga, seguidos de notas de couro novo.
Num outro registo, ele revela com a agitação notas de vegetação rasteira, húmus e folhas secas.
O seu envelhecimento conferiu-lhe caracteres de madeira queimada, torrada e uma ligeira nota de café.
Após agitação, o copo é coberto por numerosas lágrimas finas que escorrem rapidamente.
O ataque na boca é vivo com os frutos vermelhos bem presentes, seguidos pela madeira fundida. O vinho é estruturado e muito gordo, redondo, com amplitude e equilíbrio.
O final é mineral, grafite, pedra com notas empireumáticas e belos taninos finos que conferem um final longo e uma bela persistência na boca.
Uma boa garrafa característica de um Pauillac, que pode aguardar pacientemente por amanhã mas que oferece desde já um verdadeiro prazer.

Dezembro 2008
Jean-Michel RIBOULET

GEWURZTRAMINER 2001

Trata-se de um vinho de agricultura biológica elaborado através de métodos naturais.
O seu amarelo dourado e o seu brilho são iluminados por reflexos verdes quando as numerosas lágrimas, lentas e regulares, correm sobre o copo.
No nariz abunda uma ampla paleta aromática, onde se conjugam em bouquet a rosa vermelha e o gerânio, num registo a especiarias dado pelo gengibre e pela pimenta e seguidamente o marmelo.
Com o movimento, os aromas refrescam-se com notas de uva e de maçã verde.
Desde a introdução na boca mastiga-se o fruto deste vinho pleno e gordo, envolvente, onde a suavidade está em equilíbrio harmonioso com uma vivacidade realçada por uma presença ligeira de gás carbónico.
De seguida os aromas evoluem para frutos exóticos, alperce, amêndoa amarga, pistácio e fruta de caroço, com uma nota de espargos que acompanha a mineralidade.
Este produto de excelência revela-se explosivo mas simultaneamente poderoso e elegante, amplo mas fino e suave na sua duração.
É um vinho de grande expressão, tanto iniciático como capaz de satisfazer o verdadeiro epicurista.

Dezembro 2007
Jean-Michel RIBOULET

TOKAJI AZU 5 PUTTONYOS 1992

Através do seu esplendor, a luz prende-se à paleta de Outono, mutável no movimento em que se misturam o dourado, o laranja e o âmbar, que brilham deixando adivinhar laivos de verde.
O vinho espesso reveste calma e demoradamente o copo. Lágrimas abundantes, regulares e persistentes correm lentamente em sucessivas ondas.
Assim que o copo se aproxima, explodem os aromas complexos. O nariz revela-se rico e intenso com aromas a damasco, figo e mel, ligeiro ranço, notas de torrefacção, amêndoa, pistácio e laivos de café fresco.
Todavia, a frescura está igualmente presente através de notas de acácia, eucalipto, seiva de pinheiro e nuances citrinas que conferem vivacidade ao conjunto.
Ao ataque na boca, ressaltam os frutos maduros, o damasco e os frutos secos, num equilíbrio perfeito com subtis notas de frutos citrinos. O aroma tostado está em harmonia com as notas minerais.
O carácter macio, gordo e arredondado preenche a boca e casa bem com o acidulado numa fusão harmoniosa e untuosa.
Com o aquecimento no copo, os aromas tornam-se mais intensos, os frutos revelam-se mais maduros, o limão cristaliza-se.
Os aromas são persistentes, a espessura, o volume e o suporte ácido garantem-lhe uma duração notável na boca. É um loukoum de limão, simultaneamente doce e vivo.

A personalidade deste vinho pleno deixa a sua marca. O primeiro trago convida-nos inevitavelmente a outros para apreciar a sua riqueza e a descobrir a sua subtileza.

Dezembro 2006
Jean-Michel RIBOULET

PORTO LBV 1998

É um vinho dos socalcos do Douro, nascido em solo de pedras com Verões muito quentes e Invernos frios.
A sua cor um belo vermelho rubi, mate, densa e concentrada, já com algumas notas acastanhadas, traduz a força da sua juventude e a maturidade de um princípio de evolução.
As lágrimas correm lentamente no copo como a lava.
Ao primeiro nariz sobressai a frescura intensa da cereja preta, com notas de compota que se desenvolvem no copo e se completam com um aroma tostado.
Na boca, o vinho deleita-se na sua juventude, com um fruto mais fresco, a pequena cereja ácida seguida de discretas notas de resina.
Evolui para os frutos sobremaduros e a pêra cozida, para o caroço, a amêndoa amarga e o pistácio, numa vivacidade e equilíbrio perfeito.
É um vinho rico que proporciona um prazer imediato, um vinho estruturado, fundido e gordo, com um calor e uma redondeza calmantes.
Ele habita o nariz e o palato da sua intensidade envolvente, persistindo depois na boca numa explosão doce e duração tranquila.

Dezembro 2005
Jean-Michel RIBOULET

CHÂTEAUNEUF-DU-PAPE BRANCO

No seu solo de cascalho, as vinhas descem ligeiramente a encosta para se unir ao Rhône.
A luz revela o contraste entre a brancura e a redondez do cascalho e a cor escura das cepas nodosas.
Nas velhas videiras de 25 anos, os cachos são apanhados na maturidade. As uvas são douradas como o sol, as folhas começam a secar um pouco e a estalar.
O vinho é envelhecido em barris novos cuja queima evidencia o carvalho tostado.
No copo apresenta cor palha, amarelo dourado, com muito brilho e vivacidade.
De nariz intenso, nítido e complexo, com um aroma tostado, a fogo, a brioche, a resina, a especiarias e vivo, com notas florais, de limão cristalizado e de toranja.
A boca é ampla e persistente, com frutos maduros em que domina o marmelo.
A acidez está bem presente com a mineralidade da pederneira.
Ao equilíbrio perfeito dos aromas responde a untuosidade, a volúpia, a força e a duração que vê o tempo passar.
É uma harmonia, uma personalidade a degustar por si próprio.
É um vinho ideal para quando as sombras começam a alongar-se para prolongar os momentos puros.

Jean-Michel RIBOULET
Dezembro 2004